quinta-feira, 16 de setembro de 2010

15 anos de Mãe

Há já 15 anos…
Lutei por ela e entrei nesta aventura. Recordo aquele primeiro momento, um fugaz, embora intenso, contacto. Corpo no corpo, pele na pele. Era a minha filha, o meu bebé. De pele branquinha e farta cabeleira negra, depois de penteada, parecia ter sido atingida por uma rabanada de vento. Fez-me rir, muito. Lembro-me do momento em que ma entregaram para eu cuidar, recordo ter olhado para ela e ter-lhe dito, muito baixinho: “Olá, eu sou a tua mamã e tu és a minha filha!” e logo de seguida pensei: “E agora, o que faço? Como é que se faz isto?!” Logo, logo, chegou o instinto o que me deixou perplexa. Além de tudo o que ouvimos durante a gestação, os conselhos que recebemos, os ensinamentos, os livros que lemos, há de facto muito que não vem nos manuais, há tantas outras coisas que são únicas, e é isto que é mágico.
E o amor? Não me venham com conversas. O deslumbramento por se estar grávida, a ideia de que um bebé vem a caminho, este chamado estado de graça, por si só, não representam o amor por um filho. Senti conscientemente o processo todo de construção e maturação deste amor: a apresentação, a paixão, e o amor a chegar aos poucos e a ficar grande, grande, até não caber mais. É o cuidado, o mimo, este instinto relacional de sobrevivência, a dependência, a admiração, a contemplação e então sim, acontece Amor. A partir daqui, é quase indescritível, até porque esta é uma característica da emoção, a par de irrepetível. Tem que se viver. A proximidade e a cumplicidade são uma conquista. Depois?! Depois crescem-lhe as asas e, aos poucos, quer voar, sozinha. E, apesar da angústia que se instala, importa deixar de lado este egoísmo maternal, e deixá-la ir, permitir que ela seja Ela, apenas iluminando aqui e ali o seu caminho, para tentar que não se perca.
15 anos já deve dar direito pelo menos a licenciatura. Ser Mãe é um desafio. Ser Mãe é a dádiva suprema. Ser Mãe da Maria é a vida da minha alma.
Parabéns minha filha!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Na praia

Está um calor, até na praia desconfortável! Fui obrigada a parar a minha entusiasmante leitura: uma intensa dor instalou-se na minha cabeça pela luminosidade de reflexo tão brilhante que mal conseguia abrir os olhos. Pus os óculos escuros, que detesto pôr na praia e deitei-me, obrigando-me a fechar os olhos, na tentativa de dissipar este mau estar. A sensação de estar na praia, de olhos fechados é qualquer coisa de fascinante, pelo detalhe que nos permite captar o sentido da audição. Os meus olhos são agora os meus ouvidos e, se é possível imaginar a praia da Manta Rota ao domingo, quase tão povoada como a da Nazaré, mais possível é imaginar a panóplia de conversas que, de chapéu em chapéu, de família em família, vão tomando conta deste meu sentido agora apurado:

· pela voz grave e trémula, percebo que se trata de 2 gerontes:
- Hoje a água está mais suja!
- Sim, está castanha e mais fria do que ontem!
(fiquei a saber o estado do mar que hoje, apenas tinha visto de longe e não provado!)

· ouço uma criança a chorar, a chegar perto, o pai vem logo atrás e a mãe, a ralhar:
- sinceramente, é preciso falares assim com o garoto?
- se fazes favor, amaina os teus ânimos e o teu stress… - diz o pai em voz alta que percebi ter-se ido embora pelo comentário, baixinho, proferido pela mãe à avó, não sei de que parte:
- ele já volta, não levou os chinelos, assim que chegar lá acima à rua, vai voltar para trás!
Conta, então, a mãe ao avô, o sucedido, já que a criança não se calara ainda:
- o garoto enrolou-se na onda e assustou-se e o pai achou que ele estava a chorar sem razão: “um homem não chora, estás agora a chorar por uma coisinha de nada!”
(e assim começa um traumazito: ouvi, mais tarde, o menino a dizer que não iria mais ao banho nesse dia e também o avô a dizer-lhe: ”um homem não chora nem tem medo De nada!”. Afinal, estes avós devem ser os paternos!)

· está uma mãe, que não parou, desde que chegou, de ralhar com a filha, por tudo e por nada. Até quando a miúda pediu água, ela respondeu em tom áspero:
- espera um bocado, agora vais secar-te e depois é que vamos buscar água!
- o raio da miúda, nunca pára quieta! (retorquiu o avô, quando a criança apenas começou a mexer nos seus brinquedos de praia)
(afinal, a não ser o meu primo Miguel, que criança sossega na praia?)

· ao lado foi chegando, aos poucos, uma família inteira, cheia de primos e primas, avós e tios e netos, em muito semelhante à Xaleirada. Estava um primo, careca e gordinho debaixo do chapéu que, pelo que ouvi, não é muito fã de ir a banhos, assim como alguém que conheço, mas correspondeu ao desafio da prima:
- oh Marlene! Tu sabes que me levas, só porque és a minha prima predilecta!

· a voz vinha do lado e era uma conversa ao telefone:
- môr, então? Vê lá se apareces! A tua filha já comentou que o mar hoje está como tu gostas. Umas ondas enormes!!!
(ou estive deitada muito tempo alheada da alteração do estado do mar ou então esta gente não sabe o que são ondas enormes, nunca foram à Nazaré! Tive que me levantar e olhar! E assim, a visão tomou novamente as rédeas! O que vale a dor de cabeça foi desvanecendo….)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mulheres, Pessoas!

Esta condição de ser Mulher, que foi alcançada no tempo em que se era mulher, é motivo de celebração. O que aconteceu foi que nos transformámos em Super Mulheres. E só cada uma de nós conhece o peso desta responsabilidade e a ginástica que fazemos para que tudo corra sem percalços. E só nós sabemos como é difícil perdoar-nos pelas falhas. Mais do que o orgulho de ser Mulher, me orgulho daquelas Mulheres, há 150 anos que tiveram a coragem de lutar pela sua dignidade enquanto seres humanos. Este é o verdadeiro valor desta luta. Aquele exemplo de força e determinação é lembrado neste dia 8 de Março o que, para mim, funciona como um lembrete, para não me esquecer da importância de lutar por um todo em que todos têm direito a ser Pessoas.
A todas as Mulheres que fazem parte da minha vida, uma grande salva de palmas!!! Todas me passam agora pelo pensamento e a força que brota de cada uma delas é tal que até as fragilidades são empurradas, porque o único caminho é em frente. Só pode! São Mulheres, são Pessoas! Tomem lá um beijo e uma flor!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

40 anos

“Demasiado de uma coisa boa, é uma coisa maravilhosa”, Mae West
Muitos anos de vida são, para mim, uma coisa boa, eu quero demasiado desta coisa.
Mas convenhamos, 40 anos não são assim tantos anos de vida, apesar de já comporem um rico livro de histórias, uma compilação de experiências, um manual de vivências, (sem presunção).
Apaguei as luzes, a televisão e o facebook… a violência dos sons que vêm do exterior inspiram uma história de terror, mas não é por aí que pretendo seguir. Respiro fundo, vejo o sol, do qual nunca senti tantas saudades como este inverno, e encontro a luz que me guia por aqui, dentro de mim.
Dou de caras com a gratidão que hoje até se personificou, ao lembrar-me de tantas coisas boas que me rodeiam e que insistentemente é imperioso chamar até nós:
- a minha Maria que é a minha estrutura, o meu equilíbrio;
- o meu João que é o meu rejuvenescer, a minha infância, o meu brincar;
- o meu Flávio que é o meu desafio, a minha luta, a minha paixão irracional;
- os meus amigos de longa data que são a minha história;
- os meus amigos novos que são a minha inspiração e motivação;
- os meus pais que são a minha base, a minha antítese e a minha revolta;
- o meu irmão que é a minha admiração e o meu espanto, a minha distância;
- o meu trabalho que me põe à prova e me mostra capacidades emergentes;
- os meus colegas que são equipa num projecto de crescimento profissional;
- as minhas primas que são únicas, que são a minha dependência;
- a minha sorte que é o mapa que eu traço para a minha vida;
- o ar que respiro, o chão que piso, a flor que cheiro;
- a chuva que me molha, o sol que me aquece;
- cantar, dançar, carnaval;
- o cheiro a pão acabado de fazer, o sabor amargo do café;
- o bolo de iogurte que teimo em deturpar com chá de cidreira;
- a Oprah que me faz chorar, o dr.Oz e o resveratrol;
- as emoções que se me despertam, todos os dias;
- a fé no amor, que não se vê, que sinto por mim e que transpiro num desejo de dádiva e partilha…
tudo isto e tanto mais, me mantém viva, com 40 anos… Parabéns a mim, que mereço o privilégio do que já vivi e que acredito na longevidade da esperança.
São 4 da manhã, decidi que hoje iria viver o mais possível estas 24 horas acordada a fazer coisas de que gosto. Gosto de me enroscar no Joãozinho, quentinho, que está a dormir na nossa cama. Vou até lá e aproveito p’ra fechar os olhos por quase 2 horitas. Também gosto de dormir…
(O temporal continua lá fora…)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Aqui é o mar em que desaguo,
Este é o céu em que voo
O chão das minhas pegadas
Calmas ou aceleradas
A vida feita de sensações
O meu mundo de emoções

Aqui volto quando preciso
E há muito que o não faço
Talvez seja bom sinal
Ou será que não faz mal
Reter tudo aqui dentro
Durante todo este tempo?

Sim, tenho muito para dizer
Há uma lista de temas
Que preciso desabafar
E para que pares de cobrar
Esta minha longa ausência
Voltei…

Para manter a essência
Para corresponder
Há um compromisso pessoal
Uma agitação sem igual
Quero permitir testemunhar
E assim perpetuar…

O quanto avanço e recuo
Os caminhos que trilho
As escolhas que faço
Os esboços que traço
Dos meus sonhos e quimeras
Os meus medos das feras

Gostava que aqui estivesse tudo
Tudo o que eu represento
Aqui, neste porto seguro
O Amor derruba qualquer muro
Aqui, que nada mais me devolve
Do que a paz que resolve

Voltei… para ficar…






domingo, 3 de janeiro de 2010

Feliz Ano Novo!

Não sou ambiciosa.
Sim, tenho planos, pequenos desejos que gostaria de concretizar este ano.
Sim, tenho sonhos, sonhos que gostaria de ver transformados em projectos, mas estes vão demorar mais tempo até poderem ter rosto.
Queria tudo para ontem, sinto que há muitas urgências. E sinto um desejo enorme de constante inspiração. Por isso, o que mais anseio é a serenidade e a paciência, para mim e para os que me rodeiam.
2010 em paz e harmonia. Que o Amor seja rei, em cada dia, em cada decisão, em cada escolha, em cada palavra, em cada gesto. Que o Amor impere no coração de cada um de nós e nos acalente com muita esperança. Feliz Ano Novo!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Sonho de Natal


Eu tenho um sonho. Um sonho de um verdadeiro Natal! Lanço o desafio e o compromisso de, no próximo ano, assistir à concretização deste sonho:

"Há renas lá fora, luzes de encantar por todo o lado. O jardim foi invadido pelas estrelas de Natal, todas as "minhas crianças" com os mais lindos e mágicos sorrisos e risos que cantam as canções de Natal mais conhecidas. Estes meninos e meninas estão acompanhadas dos seus pais, que os prepararam para um Natal diferente, para o verdadeiro Natal. Todos juntos, construimos uma grande árvore de Natal, enfeitada com o toque e imaginação de cada criança e ela vai brilhar, tanto que ofuscará todos os corações grandes e pequeninos. Tiramos uma foto, muitas fotos! Os presentes que rodearão esta árvore, foram trazidos pelos meninos e meninas para dar, para dá-los a outros meninos e meninas que não têm um Natal como nós - se calhar não têm família, provavelmente não têm presentes, talvez não tenham amigos, concerteza não sentem o conforto do amor - por isso, vamos todos dar-lhes estas prendas envoltas em papel de luz e brilho infantil. Levamos, também, comidinha bem gostosa, para um lanche de Natal em conjunto: as "minhas" crianças e pais, as "nossas, de ninguém" crianças e quem delas cuida. Vamos levar música e animação e vamos brincar todos. Vamos fazer Natal."

É um sonho que já me parece real. Este Natal será no dia 18 de Dezembro de 2010.

Postal de Natal

- "Mãe, compra-me um postal de Natal!"
- "Ok, mas é para quem ? Para um amigo, amiga, familiar ?!"
- "Para um familiar... Escolhe o que mais gostares!"
Assim fiz. E afinal, o postal era para mim. Dizia no envelope:
"Para a melhor, a maior, a mais boa, a mais maluca, para a Minha Mãe" - claro que, de imediato as lágrimas me envolveram e não li o interior até me sentir minimamente preparada. O conteúdo deixo p'ra mim, gravado no meu coração, que ficou do tamanho do mundo quando li gratidão, amor, humildade, sinceridade e sensibilidade. É isto o melhor de ser Mãe, esta compensação que me mantém no caminho de fazer o meu melhor, dar tudo o que sei como sei, ser eu própria e, sem pudor, mostrar-me assim, eu mesma. A verdade é mesmo o melhor que se pode mostrar aos filhos, ainda que a tendência seja a de os proteger. Mas não os substimo, eles percebem tudo, eles vêem sempre tudo com a mais pura e profunda clareza. Esta mensagem que recebi é também um sinal e um compromisso, também me faz reconhecer falhas que tenho que limar.
No final de uma semana, tão intensa de emoções: por ter recebido o melhor presente de Natal, através da dádiva; algumas revoltas por não conseguir estar com todas as pessoas de quem gosto muito, por identificar a lacuna gritante quando se tenta dignificar uma pessoa, pelo direito que lhe assiste pela condição de ser humano, e de ser tão difícil fazê-lo; recebo o postal de Natal da minha vida, uma lufada de ar fresco. E fez-se magia... a magia de um postal de Natal!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Rapazes Nus a Cantar

Quem disse que eu, que até me considero uma pessoa "open minded", sou desprovida de qualquer preconceito ou tabu? Quem disse que aceito a diferença sem questionar ? Quem disse que não sinto o choque do confronto? Dizia eu, sim. O que é certo é que me senti intimidada e com vergonha.
Fui ao teatro ver uma peça porque o nome era sugestivo: homens, nus num palco, nem sabía a fazerem o quê, a não ser cantar, porque o nome assim o explicita. Não havia qualquer outra expectativa do que... ver pilas ?! o quê ?! comprovar se era mesmo verdade?! descobrir como reagiria ?! era grande a curiosidade, pelo menos. Eis senão quando entram, julgo que 8 homens com as mãos a tapar as ditas, cantando e dançando... até aqui tudo mais ou menos. Quando os rapazes se mostram, ora bem, tossi, olhei para o lado, fingi que nem espreitava para apreciar, ri-me do riso de um grupo de idosas que pensei fossem cair p'ró lado, esforcei-me por manter o olhar na cara dos actores, tentei ao máximo focar-me nas vozes e nas suas habilidades a dançar, torci-me na cadeira vezes sem conta, mudando de posição. Enfim, habituar-me àquele cenário levou algum tempo até me sentir à vontade o suficiente para me focar nas ditas e inevitavelmente compará-las: de cores, formas e tamanhos diferentes, também elas parecem ter a sua própria identidade. Convenhamos: tentem lá imaginar um grupo de moçoilos, até jeitosos (bailarinos, muito trabalho naquele corpinho!), nus, aos saltos, a dançar, a cantar, a suar... Cenário interessante, não acham ? Por vezes ridículo, outras, cómico, outras até sensual.
O objectivo desta peça é chocar, mostrando a pila nas suas diversas facetas, em rábulas de nos fazer torcer de riso. A homossexualidade é protagonista, bem actual (já que até acabou de ser aprovada a lei que permite o casamento homossexual em Portugal). Gabo a coragem destes actores´e a sua irreverência e surpreendo-me a mim mesma, ao reagir de forma completamente inesperada ao confronto.
"Aqui, a nudez não se considera gratuita. Eles tiram as roupas para mostrar de que forma os homens se sentem despidos de cada vez que falam de si próprios. E é disso que se trata: de coisas de homens, que vão do amor e da sexualidade às idas ao ginásio ou à cerimónia da circuncisão."
"Juntos, em palco, não lhes falta entusiasmo. E hão-de cantar e dançar para quem os quiser ir ver: "Vá, venham aplaudir os rapazes que desfilam com mais uma canção, vamos lá despir esse vosso preconceito, neste musical estar sem roupa é respeito", cantam, quase no fim. Afinal, aqui, o público também tem de se despir - não de roupas, mas de inibições." in visao.pt

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Feliz Natal, Dinis!

Não me lembro de ter feito algo assim e é tão enriquecedor e entusiasmante que o meu coração quase explode!!! O Dinis é um menino com uma doença rara, filho de uma colega da prima Anabela, que conhece bem de perto este caso. Fui contagiada por esta prima e pela prima Catarina, que este ano, "embarcaram" num Natal diferente, um Natal que me parece bem mais bonito e grande. Por isso, agradeço-lhes o empurrão, porque compaixão sentimos sempre e vontade de ajudar também, mas iniciativa é mais difícil.

Este registo é, sobretudo, para o João, quando souber ler e entender:

1. Email ao pai do Dinis:

"Bom dia Paulo,

Sou prima da Anabela e tenho sido envolvida na história do Dinis. É extremamente compensador recebermos este grande presente de Natal que é a dádiva. Contribuir para que o Dinis possa usufruir do máximo bem estar e qualidade de vida é de facto o presente de uma vida.
Este singelo "presente" (50€ que transferi há pouco para a conta do Dinis) é de todos os amiguinhos do João e das educadoras e auxiliares da creche Os Pequenos Índios e é também um presente para todos estes meninos e meninas, que lhes vou fazer chegar e que espero que gostem!
O João não terá provavelmente ainda consciência do signifcado deste miminho (ainda que lhe vá mostrar este email e explicar-lhe) porque não tem ainda 3 anos, mas um dia saberá, até porque ele vai querer, concerteza, dar este xi-coração pessoalmente ao Dinis.
Desejo ao Dinis e a toda a família, muita esperança para o novo ano que aí vem e boa sorte! Um beijinho ao Dinis de todos nós.
Carla Lorvão
(subscrevem também este email o Flávio e a Maria - papá e mana do João)"

2. Email aos Pequenos Índios:

"Meus caros pequenos e grandes índios e índias,
Nem imaginam as voltas que a minha cabeça deu a pensar num presente de Natal para cada uma das grandes índias que toma conta do nosso Joãozinho. Eis senão quando me lembrei que o efeito de dar, é de facto o melhor presente.
E porque não dar o que se dá ?
E porque não dar a quem precisa mais ? Não falo apenas do contributo monetário que ajudará claro, nas pesquisas e intervenções necessárias para que, em termos de qualidade de vida, o Dinis possa sentir-se melhor. O contributo de todo o calor humano, de solidariedade, que este menino possa receber, valerá por milhões.
Por isso, e porque vos conheço um pouquinho, achei que iriam gostar muito deste presente de Natal que vos oferecemos, Vanda, Sofia, Sara, Isabel, Hélia e Joana, estendendo-o a todos os amiguinhos do João. O João enviou a mensagem abaixo ao Dinis que por certo irá adorar conhecer toda a tribo.
Apresento-vos também o Dinis e a sua história, através do seu site http://www.dinis.webnode.com/ e também poderão aceder aos links, abaixo, no email do pai do Dinis.
Como hoje vamos receber um grande presente vosso, na festinha de Natal, que por certo nos irá rasar os olhos de emoção, esta nossa lembrança para vós, segue para a troca :)
Feliz Natal e Excelente Ano de 2010
Grande beijinho a todos
Carla, Maria e Flávio"

3. Resposta dos Pequenos Índios:

"Em nome dos Índios e Índias desta escola, agradeço do fundo do coração.
E, não sei como, mas consegue sempre pôr-me lágrimas nos olhos, através dos seus pequenos grandes gestos, que fazem de si a pessoa “gigante” que é.
Um grande beijinho e obrigada.
Sofia, Vanda, Joana, Hélia, Sara e Isabel"

4. Resposta do pai do Dinis:

"Boa noite Flávio, Carla, João e Maria…
Estamos de lágrima nos olhos… é de facto maravilhoso saber que existem tantos coraçõezinhos, apesar de distantes, a pensar no bem estar do nosso menino.
Apesar de só terem 3 aninhos… estas crianças conseguirem encher o nosso peito de novas energias e conseguiram transmitir que a força não tem medida….sente-se e pronto!
Parabéns pela dedicação, pela coragem e pela forma como transmite ao pequeno João esta forma de se dar e de se amar.
Queríamos muito pedir autorização para colocarmos este LINDO presente no site do Dinis – seria uma honra muito grande.
Votos de um Santo e Feliz Natal e que Deus vos ajude… a nós tem-nos ajudado todos os dias… tem colocado nos nossos caminhos verdadeiros anjos!
Paulo, Sofia, Gonçalo e Dinis"

5. Resposta ao pai do Dinis

"Bom dia Paulo,
Nós é que agradecemos a inspiração. O desejo de que o Dinis fique bem é a voz que se ouve com maior intensidade, por isso, se tivermos que gritar, fá-lo-emos.
Uma vez que o postal tem a fotografia de muitos meninos, terei que pedir autorização na escolinha para averiguar junto dos pais se efectivamente se poderá publicar no site do Dinis. Nós gostaríamos muito que sim, e por isso, peço a colaboração das grandes Índias para fazerem o favor de questionar os papás.
Já agora acrescento que a creche Os Pequenos Índios gostaram também muuuiiiitooooo deste presente de Natal.
Mais uma vez, obrigada e até breve!
Carla, Flávio, João e Maria

domingo, 13 de dezembro de 2009

Generosidade

Não foi uma notícia de jornal que li ou uma reportagem de tv que vi, daquelas que me impressionam de tal forma que questiono ingenuamente incrédula: será que há realmente pessoas assim? Pois bem, há-as e bem perto! É assustadora a força da mágoa a manipular a mente, alterando perspectivas e levando-as para bem longe da razoabilidade. Poderão ser apenas palavras proferidas com tamanha dor, acompanhadas de uma raiva tão intensa que ouvi-las é já um verdadeiro filme de terror para mim. O bestial passa a besta numa abrir e fechar de olhos, os sentimentos mudam, as prioridades alteram-se, a realidade passa a ser outra. O desejo de vingança prevalece e eu, uma vez mais, sinto a desilusão.
É tão preciso ser-se generoso. Ser assim nobre, não digo que seja fácil, porque a generosidade representa uma atitude gratuita, mas quando se é generoso, também não se pensa em cobrança, por isso é a coisa mais simples do mundo. Basta um pouco de despojamento, e é bem mais proveitoso ocupar o pensamento e a energia à procura de soluções realmente eficazes do que perder tempo e criatividade a elaborar planos que mais não farão do que aumentar a instabilidade e dividir famílias. Mesquinhez poderá levar alguém ao 1º lugar do podium mas o verdadeiro problema subsistirá.
O melhor prémio será a consciência tranquila e o prazer de dar (afinal até há uma recompensa!). Só assim faz sentido para mim. Tempo, companhia, carinho, cuidado, dedicação. Amor. Ouvir, estar, compreender, ajudar. Amar. Tenho esperança que a luz aclare ideias e que tudo volte ao lugar, bem arrumadinho! Ouvi, mas não gosto de filmes de terror, por isso espero não vir a assistir a nenhum!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Incompreendida ou não entendida

Como é que ainda fico surpreendida com a incompreensão ou o não entendimento de mim por pessoas que mal me conhecem ou que, digo mesmo, que nada me conhecem?
Não deveria ser a sinceridade compensadora por si mesma? Não seria a transparência a moeda justa de troca pela confiança de outros? Cada vez mais me parece que não. Frustra-me e irrita-me. Provavelmente julgam-me cínica, falsa, mas como é isto possível?! Como é que consigo enganar assim certas pessoas ? Pessoas próximas, porém distantes, claro! Não pode ser, não consigo acreditar que a minha essência não seja reflectida, que eu não espelhe a minha verdade, que é pura e simples e completamente despojada de pejorativos interesses. Sou grata por ser e estar, pelos sorrisos e lágrimas que lisonjeiramente testemunho, pelo que me é permitido contemplar em gente, em sítios, em coisas. Em troca, respeitem-me como a uma anónima, é melhor do que inventarem sobre mim.
Constato que a prudência é o melhor aliado. Afinal, aquela transparência não é mais do que uma exposição que se revela nefasta. E cá estou eu, também a ser formatada, a deixar-me de lado para aproximar-me do estereótipo convencional e obter a aceitação, livre de preconceito. Cá estou eu a ouvir os outros conjecturarem sobre a minha pessoa, sem nada saberem dela. O que é certo é que os ouço e que acabo por ser manipulada. Fraca, também me canso de estar sempre na linha da frente em combate e cedo, provando mais um pouquinho do sabor da derrota. A irreverência também pede férias ou então é levada pelos anos que passam. Odeio negligenciar, mas preciso descansar…

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Verdadeiro espírito de Natal


Não posso deixar de publicar este pedido que acabei de receber. Reflecte o espírito natalício que subscrevo. É preciso ter coragem para renunciar assim ao materialismo e assumi-lo perante família e amigos e vizinhos. A Leonor ainda é pequenina, tem só 4 anos, mas EU SEI, já vi, que ela também percebe e aceita isto com um grande sorriso. Bravo!!!


"Amigas, Vizinhas, e família
Antes de mais votos de excelente Natal!
Pois cá venho eu falar-vos de um tema que me incomoda e como já sabem que sou assim …. avanço com a minha já tão conhecida frontalidade:
Este ano, gostaria de partilhar convosco o seguinte:
1. A Leonor tem milhões de brinquedos
2. Neste altura do ano, vai receber outros tantos (avós, e família directa, empresa)
3. Não aprecio mesmo nada o momento de abertura compulsiva dos mesmos na noite em que é suposto estarmos com miminhos e muitos!
Pelo que, espero que não se sintam incomodados com a minha decisão mas peço-vos para NÃO comprarem prenda de natal para ela. Não deverá ser uma obrigação pelo que fica aqui o meu pedido…. A minha filha também agradece, pois é uma forma de educação. Ter menos, para SER mais…
O Natal não é isso, e a vida não está para isso.
Em vez disso (e caso pretendam) agradeço que canalizem a quantia que iam gastar com ela em algo que possa ajudar as crianças que de facto necessitam. Ou não, cada um sabe da sua vida.
No que me diz respeito, vou agarrar numa determinada quantia e vou distribuir pelas associações que conheço, com alimentos e outros bens de 1ª necessidade. Faço-o sempre, mas agora farei talvez com outro maior cuidado.
Todos os anos há uma escolha em minha casa, de dezenas de brinquedos com que não se chegou a brincar… e não é justo.
Como decerto entenderam, cada um fará o que melhor decidir, mas no meu caso e olhando para todos vós (felizmente) não vejo necessidade deste consumo e não me parece que as vossas crianças fiquem mais felizes com o presente residual que se oferece no Natal. Nem a minha criança.
Nos aniversários das mesmas, aí sim (na minha perspectiva) deve ser o momento das crianças.
Um beijinhos para todos e se quiserem apareçam para beber uma taça de vinho, champagne ou água simplesmente! Serão muito bem-vindos, mas sem presentes ! Isso sim ela vai adorar e nós também. Fico à vossa espera!"

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Aceitação

Integrei há uma semana uma nova equipa de trabalho. São pessoas que já conhecia e os projectos também não me são estranhos. De resto, desde Fevereiro último, tudo na minha vida têm sido mudanças e adaptações. Isto implica que nos apresentemos sempre como uma página em branco. Sucedem-se as apresentações, há sempre algum rosto no qual nunca reparámos ou que estamos a ver efectivamente pela primeira vez; e há reencontros, muitos, porque este mundinho é mesmo muito pequeno. E, como vamos amadurecendo e adquirindo experiência e conhecimento, também para os que já nos conhecem, fazemos parte de um outro contexto, de uma nova realidade. Há, no entanto, um pormenor comum, o de desejarmos ser aceites.
Curioso é que o tentamos pela via pessoal, procuramos encontrar nas conversas que vamos gerando ou em que nos vamos infiltrando, pontos em comum, algo que nos ligue e naturalmente nos aproxime, das nossas vidas privadas: falamos das primeiras vezes dos nossos filhos bebés, preocupamo-nos ou não tanto com a gripe A, descrevemos viagens e desabafamos o desejo de voltar a ter férias, partilhamos o que vai ser o jantar hoje e como o confeccionamos, confessamos que gostávamos de ter um cão, mas que é um desejo egoísta porque vivemos num apartamento… Enfim, uma panóplia infindável de hábitos e opiniões que nos aproximam numa relação que extravasa o banal, porque realmente nos importam estas conversas, e fica ali numa zona cinzenta, porque também ainda não atingimos aquele ponto de intimidade que nos leva de colegas a amigos.
Mais curioso ainda é que indubitavelmente, existe um dado comum a todos nós que é o trabalho, os projectos, a nova equipa, os recém chegados chefes e dedicamos-lhe apenas cerca de 20% destes momentos de conversa que vamos tendo ao longo de todo o dia. A aceitação pessoal toma assim as rédeas e é protagonista, em detrimento da aceitação profissional.
Sou muito ingénua, mas será porque aqui o nosso real interesse é competir, ter as melhores ideias sem as divulgar com receio de no-las roubarem? Fechamo-las a 7 chaves até termos abertura para as revelarmos, em segurança, ou quando entendemos ser oportunos. O momento certo no lugar certo pode transformar qualquer um de nós, simples operacionais, num ”cérebro” e ganhar a tão desejada aceitação. Esta aceitação, profissional, a este nível, não a conseguimos obter de todos. É pena, porque a competência e a eficiência deveriam ser, por si só e pelo que lhes é inerente, o principal motivo de aceitação neste mundo tão “cão”. Há posturas e atitudes que não entendo. Eu quero participar, ter a coragem de dizer talvez o que nem faça sentido ou o que seja irrelevante, mas efectivamente partilhar porque o meu entendimento é que posso contribuir para um objectivo comum. Não é preciso brilhar, não precisamos do palco, apenas ter a oportunidade de nos fazermos ouvir… ou não será esta uma forma generosa de nos sentirmos aceites?

Expectativas...



Aqui está mais uma reflexão, não minha, mas que alguém me deu como resposta neste contexto:

Ela - "A tua filha tem boas notas ?"
Eu - "Eh! Mais ou menos, teve 2 testes de 50 e tal %, um de 89% e os outros são todos de 70 e tal..."
Ela - "Ah, então ?! São notas boas, porque falas assim, meio desiludida ?"
Eu - "Porque sei que se ela trabalhasse mais, se fosse menos preguiçosa, as notas seriam muito melhores! Distrai-se com muitas coisas."
Ela - "Já pensaste que ela pode ser mais feliz assim ?!"

"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades.Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas.Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos.Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar.Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição. Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito.É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho. Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a tomar Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos.Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.
Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"

De João Pereira Coutinho

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Choque












a minha pequenina cresceu…
ainda vejo aquela boneca que foi à escola a primeira vez…
o seu coração despertou…
a menina ficou mulher…
já sabia mas não via assim…
memórias e lembranças levam-me até bem lá atrás no tempo…
mais uma etapa, mais um começo…
anseio por tudo saber…
quero respeitar, acima de tudo…
resta-me estar por aqui…
não sei bem de que forma…
o momento, ao saber, que me chocou…
foi o que tanto me emocionou…
não poder dar aquele abraço...
saber que o seu coração despertou…

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A call to bring the world together…

Não posso deixar de publicar este apelo aqui. Para já, em inglês, vou depois tentar traduzir. O link está aqui ao lado, que designei como "Das mais nobres qualidades" para consulta...

"The principle of compassion lies at the heart of all religious, ethical and spiritual traditions, calling us always to treat all others as we wish to be treated ourselves. Compassion impels us to work tirelessly to alleviate the suffering of our fellow creatures, to dethrone ourselves from the centre of our world and put another there, and to honour the inviolable sanctity of every single human being, treating everybody, without exception, with absolute justice, equity and respect.
It is also necessary in both public and private life to refrain consistently and empathically from inflicting pain. To act or speak violently out of spite, chauvinism, or self-interest, to impoverish, exploit or deny basic rights to anybody, and to incite hatred by denigrating others—even our enemies—is a denial of our common humanity. We acknowledge that we have failed to live compassionately and that some have even increased the sum of human misery in the name of religion.
We therefore call upon all men and women ~ to restore compassion to the centre of morality and religion ~ to return to the ancient principle that any interpretation of scripture that breeds violence, hatred or disdain is illegitimate ~ to ensure that youth are given accurate and respectful information about other traditions, religions and cultures ~ to encourage a positive appreciation of cultural and religious diversity ~ to cultivate an informed empathy with the suffering of all human beings—even those regarded as enemies.
We urgently need to make compassion a clear, luminous and dynamic force in our polarized world. Rooted in a principled determination to transcend selfishness, compassion can break down political, dogmatic, ideological and religious boundaries. Born of our deep interdependence, compassion is essential to human relationships and to a fulfilled humanity. It is the path to enlightenment, and indispensible to the creation of a just economy and a peaceful global community."

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A consciência é o antídoto para a imbecilidade

A propósito do post de ontem, tenho que publicar aqui este texto, válido para as crianças adolescentes e para os crescidos também:

“Sabes qual é a única obrigação que temos nesta vida? Pois é a de não sermos imbecis. A palavra «imbecil» é mais densa do que parece, não duvides. Vem do latim baculus, que significa «bastão»: o imbecil é o que precisa de um bastão ou bengala para andar. Que não se zanguem connosco os coxos nem os velhos, pois a bengala a que nos referimos não é a que muito legitimamente se usa para ajudar a sustentar-se e a andar um corpo enfraquecido por algum acidente ou pela idade. O imbecil pode ser tão ágil quanto se queira e dar saltos como uma gazela olímpica, não é disso que se trata. Se o imbecil coxeia não é dos pés, mas do espírito: é o seu espírito que é enfermiço e manco, embora o seu corpo possa dar cambalhotas de primeira. Há imbecis de diversos modelos, à escolha:
a) O que acredita que não quer nada, o que diz que para ele é tudo igual, o que vive num perpétuo bocejo ou numa sesta permanente, mesmo que tenha os olhos abertos e não ressone.
b) O que acredita que quer tudo, a primeira coisa que lhe aparece e o contrário do que lhe aparece: ir-se embora e ficar, dançar e estar sentado, mascar dentes de alho e dar beijinhos sublimes, tudo ao mesmo tempo.
c) O que não sabe o que quer nem se dá ao trabalho de o averiguar. Imita os quereres dos seus vizinhos ou contraria-os porque sim, tudo o que faz é ditado pela opinião maioritária daqueles que o rodeiam: é conformista sem reflexão ou revoltado sem causa.
d) O que sabe que quer e sabe o que quer e, mais ou menos, sabe porque é que o quer. Mas que pouco, com medo ou sem força. Acaba sempre por fazer, bem vistas as coisas, o que não quer, deixando o que quer para amanhã, pois talvez amanhã esteja mais bem-disposto.
e) O que quer com força e ferocidade, em estilo bárbaro, mas se enganou a si próprio acerca do que é a realidade; despista-se em grande e acaba por confundir a vida boa com aquilo que o há-de tornar pó.
Todos estes tipos de imbecilidade precisam de bengala, ou seja, precisam de se apoiar em coisas de fora, alheias, que nada têm que ver com a liberdade e reflexão pessoais.O contrário de se ser moralmente imbecil é ter-se consciência.Em que consiste essa consciência, que nos curará da imbecilidade moral? Fundamentalmente nos traços seguintes:
a) Saber que nem tudo vem a dar no mesmo porque queremos realmente viver e, além disso, viver bem, humanamente bem.
b) Estarmos dispostos a prestar atenção para vermos se aquilo que fazemos corresponde ou não ao que deveras queremos.
c) À base de prática, irmos desenvolvendo o bom gosto moral, de tal modo que haja certas coisas que nos repugne espontaneamente fazer (por exemplo, termos «nojo» de mentir como temos em geral nojo de mijar na terrina da sopa em que vamos comer a seguir…)
d) Renunciarmos a procurar argumentos que dissimulem o facto de sermos livres e portanto razoavelmente responsáveis pelas consequências dos nossos actos.

” F. SAVATER, Ética para um jovem"

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Crianças adolescentes

Desde a semana passada que o meu pensamento me leva frequentemente à reunião em que participei, do Conselho de Turma da turma da Maria, na qualidade de Representante dos Encarregados de Educação. Receio ser injusta na impressão geral com que fiquei, mas parece-me efectivamente que apenas se cumpriu um pró-forma. Admiro a Directora de Turma que provou, ao longo destes 3 anos, ser uma verdadeira educadora, com experiência e visão, sempre muito objectiva e imparcial nas suas apreciações. Mais uma vez o foi e até manifestou alguma preocupação ao escutar a voz dos alunos (a Delegada de Turma, também presente, levou uma lista de “recados”) já que existe um problema identificado que acaba por caracterizar a turma. Há um pequeno grupo de “desordeiros” que coloca a turma no top do ranking do mau comportamento naquela escola.
Estas crianças, assim se devem chamar, que até reconhecem as suas atitudes menos próprias e sabem o que fazer para mudar, levam a cabo apenas metade do trabalho: registam os erros e apresentam as intenções de correcção, infelizmente, apenas as intenções, porque tudo se repete. No meu 7º ano, lembro-me também de fazer parte de uma turma em que um grupo de 5 ou 6 fazia a vida negra aos professores, incendiando caixotes do lixo, partindo as janelas para sair para o recreio, faltando às aulas e/ou indo frequentemente para a rua, enfim, até me lembro do constrangimento que senti quando, por causa daquele bando, tivemos uma falta colectiva. Nunca tal! Este parêntesis serve para concluir que não são os dias de hoje, em que tudo é facilitado a estas crianças adolescentes, em que lhes é dado acesso a tudo e mais alguma coisa e, pobrezinhos, para não causar qualquer tipo de trauma a estas cabecinhas, homens de amanhã, deixamo-los livres e confiamos neles ou tapamos intencionalmente os olhos. Mas sempre assim foi, sempre houveram “maus da fita” ou até outro tipo de perturbadores. Quem não teve na turma um cromo ou uma miúda que trocava de namorado todas as semanas ou ainda a que se vestia estranhamente todo de preto ou a parola da aldeia das redondezas.
Esta é uma turma heterogénea. Na escola, tal como em qualquer local de trabalho, confrontamo-nos com colegas diferentes, mais ou menos competentes, responsáveis ou negligentes, empenhados ou desmotivados. Temos que preparar esta gente para saber lidar com a diferença, é fundamental falar-lhes de bom senso, de equilíbrio, de razoabilidade, da valorização e da penalização, do que leva a um ou a outro caminho, de ensiná-los a usar a sua condição de inteligentes para um bem comum. O trabalho a fazer é agora, mas confesso, não sei se confio no grupo de professores que trabalham esta turma e outros grupos outras. No fundo, também não resta alternativa: um diz frequentemente aos alunos que não gosta de ser professor e que já devia estar reformado; outra permanentemente faz troça dos miúdos, desrespeitando-os; outra fala-lhes mal da colega, também professora deles; vi nitidamente uma mudança de atitude face à abordagem de uma aluna, quando percebida a minha presença; a própria reunião foi “a despachar”, quando, a meu ver há assuntos verdadeiramente importantes a tratar e rotas a traçar, estratégias a implementar.
Cometemos, nós, adultos, um erro crasso, que é substimar estas pessoas, estes adolescentes que pouco têm de inocência, mas muito de esperteza. E, claro que entendem o que fazem, óbvio que têm noções claríssimas de justiça, sabem muitíssimo bem distinguir o bem do mal. E, como herança de crianças, ninguém como elas tem a sabedoria de dispor de todos os meios ao alcance para atingir objectivos, para conseguirem o que querem. São persistentes e nós não fazemos mais do que ceder. É um cenário ambíguo, este, por um lado devemos tratá-los como crescidos, por outro, temos que utilizar a autoridade para dizer-lhes que ainda não são tão crescidos assim. Uma coisa é certa: ainda que eles nos ouçam dizer como deve ser, só vão mesmo fazer como nós fazemos. E nenhum destes crescidos, supostamente educadores (pais e professores) dá o exemplo!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Intensa paixão

Senti uma paixão desmesurada por uma mulher. Cautelosa no início, tentei perceber que terreno estaria a pisar. Mas foi inevitável, não foi um amor à primeira vista, mas um sentimento que rapidamente cresceu em força e intensidade. Daqueles que até desgasta, que não nos sai da cabeça, que causa aquela ansiedade que nos faz olhar p’ró relógio p’ra saber se são horas já de ela chegar, que nos ocupa o pensamento noite fora e não trava o impulso de um sms antes de dormir.
A graciosidade na postura, as palavras que, de impulso, lhe ouvimos, com graça inigualável, tamanha genuinidade, atracção inevitável. O trabalho é a sua fonte de vida: ultrapassar o nível máximo de responsabilidade e competência é um desafio que encara espontaneamente como obrigatória. E nunca conheci ninguém tão perspicaz e atento.
Quando, por longos momentos não esteve, instalou-se o vazio, uma saudade daquelas que doía, a tristeza da incerteza, a raiva por quem decide e dispõe. Longe da vista, longe do coração. Melhor não falar, não promover o encontro ou o telefonema, deixá-la lá, no canto dela, sozinha. Percebi isto, quando compreendi que nada, mas mesmo nada a desviava daquele buraco negro, porque de lá não queria sair a não ser por um único motivo. O mundo cá fora continuava a girar, muito deste mundo, a girar em redor dela. E conseguiu, quem ela queria que viesse salvá-la, realmente apareceu. Então, voltou, ela voltou…
Senti uma paixão louca não correspondida. Senti uma paixão louca a aquietar-se, a suavizar-se, provavelmente uma relação a amadurecer. Ou então entendi o retorno de outra forma. Tenho vindo a constatar que esta mulher forte é também menina frágil, com uma história de vida dura que lhe vestiu esta armadura e, de arma em punho se defende de qualquer ameaça à sua vulnerabilidade. Essa menina dificilmente se deixa mostrar.
Já me deu muito, esta mulher. Já me fez sentir muito, bom ou menos bom, mas sempre muito intenso. A brincar é intensa, o olhar é intenso, a conversa é intensa, o trabalho excede até o intenso.
Não entendo ainda algumas coisas, por isso continua a ser estimulante. Ela continua por aqui… E também continua a pairar muita cor, vivacidade e luminosidade…