Desde a semana passada que o meu pensamento me leva frequentemente à reunião em que participei, do Conselho de Turma da turma da Maria, na qualidade de Representante dos Encarregados de Educação. Receio ser injusta na impressão geral com que fiquei, mas parece-me efectivamente que apenas se cumpriu um pró-forma. Admiro a Directora de Turma que provou, ao longo destes 3 anos, ser uma verdadeira educadora, com experiência e visão, sempre muito objectiva e imparcial nas suas apreciações. Mais uma vez o foi e até manifestou alguma preocupação ao escutar a voz dos alunos (a Delegada de Turma, também presente, levou uma lista de “recados”) já que existe um problema identificado que acaba por caracterizar a turma. Há um pequeno grupo de “desordeiros” que coloca a turma no top do ranking do mau comportamento naquela escola.Estas crianças, assim se devem chamar, que até reconhecem as suas atitudes menos próprias e sabem o que fazer para mudar, levam a cabo apenas metade do trabalho: registam os erros e apresentam as intenções de correcção, infelizmente, apenas as intenções, porque tudo se repete. No meu 7º ano, lembro-me também de fazer parte de uma turma em que um grupo de 5 ou 6 fazia a vida negra aos professores, incendiando caixotes do lixo, partindo as janelas para sair para o recreio, faltando às aulas e/ou indo frequentemente para a rua, enfim, até me lembro do constrangimento que senti quando, por causa daquele bando, tivemos uma falta colectiva. Nunca tal! Este parêntesis serve para concluir que não são os dias de hoje, em que tudo é facilitado a estas crianças adolescentes, em que lhes é dado acesso a tudo e mais alguma coisa e, pobrezinhos, para não causar qualquer tipo de trauma a estas cabecinhas, homens de amanhã, deixamo-los livres e confiamos neles ou tapamos intencionalmente os olhos. Mas sempre assim foi, sempre houveram “maus da fita” ou até outro tipo de perturbadores. Quem não teve na turma um cromo ou uma miúda que trocava de namorado todas as semanas ou ainda a que se vestia estranhamente todo de preto ou a parola da aldeia das redondezas.
Esta é uma turma heterogénea. Na escola, tal como em qualquer local de trabalho, confrontamo-nos com colegas diferentes, mais ou menos competentes, responsáveis ou negligentes, empenhados ou desmotivados. Temos que preparar esta gente para saber lidar com a diferença, é fundamental falar-lhes de bom senso, de equilíbrio, de razoabilidade, da valorização e da penalização, do que leva a um ou a outro caminho, de ensiná-los a usar a sua condição de inteligentes para um bem comum. O trabalho a fazer é agora, mas confesso, não sei se confio no grupo de professores que trabalham esta turma e outros grupos outras. No fundo, também não resta alternativa: um diz frequentemente aos alunos que não gosta de ser professor e que já devia estar reformado; outra permanentemente faz troça dos miúdos, desrespeitando-os; outra fala-lhes mal da colega, também professora deles; vi nitidamente uma mudança de atitude face à abordagem de uma aluna, quando percebida a minha presença; a própria reunião foi “a despachar”, quando, a meu ver há assuntos verdadeiramente importantes a tratar e rotas a traçar, estratégias a implementar.
Cometemos, nós, adultos, um erro crasso, que é substimar estas pessoas, estes adolescentes que pouco têm de inocência, mas muito de esperteza. E, claro que entendem o que fazem, óbvio que têm noções claríssimas de justiça, sabem muitíssimo bem distinguir o bem do mal. E, como herança de crianças, ninguém como elas tem a sabedoria de dispor de todos os meios ao alcance para atingir objectivos, para conseguirem o que querem. São persistentes e nós não fazemos mais do que ceder. É um cenário ambíguo, este, por um lado devemos tratá-los como crescidos, por outro, temos que utilizar a autoridade para dizer-lhes que ainda não são tão crescidos assim. Uma coisa é certa: ainda que eles nos ouçam dizer como deve ser, só vão mesmo fazer como nós fazemos. E nenhum destes crescidos, supostamente educadores (pais e professores) dá o exemplo!
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